Como resgatar a sensualidade feminina
- Bhogananda

- 14 de jul.
- 5 min de leitura
A sensualidade como linguagem natural do corpo feminino
Há uma versão de nós que existe antes de qualquer condicionamento, antes das regras, antes do olhar dos outros, antes de termos aprendido que o nosso corpo era demasiado, de menos, ou simplesmente errado. Essa versão não precisa de ser construída, só precisa de ser recordada. E é exactamente isso que a sensualidade é: é o relembrar daquilo que somos, é um regresso; não é uma conquista ou algo que temos de ir procurar ao exterior.
A sensualidade não tem nada a ver com sedução, nem com a forma do corpo, nem com a idade. É a capacidade de habitarmos o nosso corpo de dentro para fora, de sentirmos o que sentimos sem o filtrar, de nos movermos pelo mundo com consciência da nossa própria presença feminina. É o prazer de existir num corpo feminino, com toda a sua complexidade, a sua fluidez e a sua força de Shakti.
A maioria das mulheres foi desconectada desta dimensão desde muito cedo. A cultura, a religião, a família, a escola, todos contribuíram, de formas mais ou menos subtis, para nos ensinar que o corpo era perigoso, que o prazer era egoísta, que ser demasiado sensual, bonita ou feminina era um risco.
E assim fomos aprendendo a viver na cabeça, a controlar, a conter. Fomos esquecendo que tínhamos um corpo que pulsava, que desejava, que sabia coisas que a mente nunca poderia compreender sozinha.
Reconectar com a sensualidade é, portanto, um acto de cura, mas também um acto de liberdade.

Dançar, sem audiência e sem julgamento
Uma das formas mais directas de acordar a sensualidade é o movimento, especialmente a dança. Não a dança que se aprende para agradar a outros, não a dança técnica com passos certos e errados, mas a dança espontânea, orgânica, a que surge quando colocamos uma música que nos toca e simplesmente deixamos o nosso corpo responder ao seu próprio ritmo. O corpo tem uma inteligência própria que o movimento liberta de forma natural.
Quando dançamos para nós mesmas, sem espelho social, sem audiência, sem performance, algo se solta dentro de nós. Entramos em contacto com o nosso verdadeiro poder feminino. A mente descansa, as defesas baixam, e o corpo lembra-se que sabe ser, que sabe sentir, que sabe existir com prazer.
Bastar cinco a dez minutos por dia, com uma música que nos move genuinamente, para que este efeito comece a fazer-se sentir. Com o tempo, a dança deixa de ser uma prática isolada e começa a infiltrar-se na forma como nos movemos pelo mundo, como entramos numa sala, como nos relacionamos com os outros. A sensualidade irá desabrochar a cada movimento.
Olhar o próprio corpo com outros olhos
Outro caminho poderoso para resgatar a sensualidade é o espelho. Não o espelho crítico que a maioria de nós conhece demasiado bem, o que inventaria defeitos e se compara com os outros, mas o espelho como uma ferramenta de presença e reconhecimento directo. Ficar a sós com o próprio corpo nu, em silêncio, sem julgamento, sem máscaras, sem vergonhas, é um exercício que parece simples mas que é na verdade extremamente complexo, e que para muitas mulheres se torna algo surpreendentemente difícil.
O desconforto que surge nesse momento é uma informação preciosa que devemos estar atentas. Diz-nos onde ainda não habitamos o nosso próprio corpo, onde ainda não nos aceitámos, onde ainda estamos a olhar com os olhos de outros (muitas vezes críticos) em vez dos nossos, cheios de compaixão e amor. Com prática e com gentileza, esse olhar vai mudando. Começamos a ver não defeitos mas texturas, não imperfeições mas história, não um corpo que falha mas um corpo que vive.
A sensualidade cresce exactamente nesse espaço, no espaço entre a mulher que somos e a mulher que estamos a aprender a ver. Que esteve lá desde sempre.
A relação que nos oferece espaço para sermos quem somos
A sensualidade não existe num vácuo. Ela expande-se ou contrai-se consoante o ambiente em que vivemos e as relações que cultivamos. Uma relação amorosa que nos oferece segurança emocional genuína, que nos vê com admiração sem nos infantilizar, que nos convida a sermos mais e não menos, é um dos contextos mais poderosos para o florescimento sensual da mulher.
Quando estamos com alguém que nos faz sentir seguras para sermos exactamente quem somos, sem que tenhamos de nos esconder ou de nos diminuir, o corpo responde. Abre-se. Relaxa. Permite-se sentir de uma forma que não é possível quando estamos em modo de sobrevivência ou de desempenho.
Isto não significa que a sensualidade depende de uma relação, porque não depende. Mas significa que vale a pena questionarmos com honestidade se as nossas relações nos fazem expandir ou contrair, se nos convidam a ser mais livres ou mais pequenas.





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